16 de fevereiro de 2009

O Amor Livre

Este texto, escrito em Paris por Bakunin em 29 de março de 1845, é um dos que mais gosto quando o assunto é amor. A difícil arte do desapego do ser amado, a busca pela liberdade desse amor, e a descoberta que quando mais se liberta, mais "se aprisiona".

..."Sou eu mesmo, como antes, inimigo declarado da realidade existente, apenas com uma diferença: cessei de ser teórico, venci enfim a metafísica e a filosofia e entreguei-me inteiramente com toda a minha alma ao mundo prático, ao mundo dos fatos reais. Creia-me amigo, a vida é bela, agora tenho pleno direito de dizer-lhe isto, porque cessei há muito de enxergá-la através das construções teóricas e não conhecê-la mais que em fantasia, porque experimentei, efetivamente, muitas de suas amarguras; já sofri muito e caí no desespero.

Eu amo Pablo, amo apaixonadamente. Não sei se posso ser amado como quisera sê-lo, mas não desespero, sei ao menos que ela tem muita simpatia por mim - devo e quero merecer o amor daquela a quem amo, amando-a religiosamente. Ela encontra-se submetida à mais terrível e à mais infame escravidão e devo libertá-la combatendo seus opressores, acendendo em seu coração o sentimento de sua própria dignidade - suscitando-lhe o amor e a necessidade de ser libre - os instintos de rebeldia e de independência, devolvendo-lhe o sentido de sua força e de seus direitos.

Amar é querer a liberdade, a completa independência do outro. O primeiro ato do verdadeiro amor é a emancipação completa do objeto que se ama. Não se pode amar verdadeiramente mais que a um ser perfeitamente livre e independente, não apenas de todos os demais, senão e sobretudo daquele a quem se ama e é amado.

Eis ai minha profissão de fé política, social e religiosa. Eis o sentido íntimo, não apenas dos meus atos e de minhas tendências políticas, senão também, na medida do possível, o da minha existência particular e individual, porque o tempo em que podiam ser separados esses dois gêneros de ação está muito distante de nós. Agora, o homem quer a liberdade em todas as acepções e em todas as aplicações desta palavra, ou bem não a quer de nenhuma maneira. Querer ao amar a dependência daquele a quem se ama é amar uma coisa e não um ser humano, porque não se distingue o ser humano de uma coisa mais que pela liberdde e, se o amor implicasse também na dependência, seria a coisa mais perigosa e a mais infame do mundo, porque seria então uma fonte inesgotável de escravidão e de embrutecimento para a humanidade. Tudo que emancipa os homens, tudo que ao fazê-los voltar a si mesmos, suscita-lhes o princípio de sua própria vida, de sua atividade original e realmente independente, tudo que lhes dá força para serem eles mesmos é verdadeiro, todo o resto é falso, liberticida, absurdo. Emancipar o homem, eis aí a única influência legítima e benéfica.

Abaixo todos os dogmas e filosofias - não são mais que mentiras - a verdade não é uma teoria senão um fato. A vida mesma é a comunidade de homens livres, independentes. É a santa unidade do amor que brota das profundezas misteriosas e infinitas da liberdade individual."

2 estressados(as):

Ludmila Roumillac disse...

Nossa, esse eu nunca tinha lido, realmente demais e concordo com Bakunin... Pra muita gente o amor está ligado a posse, mas não é bem assim, a liberdade faz parte de cada um de nós e de nossos amores, pra isso tem que ter confiança né... =)

Um beijooo!

~ a Juh! disse...

Muito bom esse texto!
Amor também é liberdade e a maioria das pessoas não enxergam assim.
Vou "obrigar" meu namorado a ler esse texto =)

Beeeeeeeeeeijos